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SAP NOW 2026

5 min de leitura9 de setembro de 2026Por

O primeiro dia do SAP NOW AI Tour Brazil 2026, realizado em São Paulo, deixou uma mensagem clara para quem acompanha de perto a evolução da inteligência artificial nas empresas: o debate já não é mais sobre o que a IA pode fazer, e sim sobre como transformá-la em resultado real para o negócio.

Considerado o maior evento da SAP no Brasil e o segundo maior da companhia no mundo, o encontro reúne clientes, parceiros, executivos e especialistas ao longo de dois dias, com mais de 350 sessões e 100 apresentações de clientes. Ao longo da abertura, ficou evidente que o próximo passo da IA empresarial depende menos de novos modelos e mais da capacidade de conectá-los ao contexto real de cada operação.

O que marcou o primeiro dia do evento

IA genérica não é suficiente para decisões de negócio

Um dos pontos mais reforçados na abertura, conduzida por Rui Botelho, presidente da SAP Brasil, foi o limite da inteligência artificial genérica quando o assunto é decisão de negócio. A comparação usada foi a de um risoto: preparado com 80% dos passos corretos, ainda assim é um prato que falhou.

Um exemplo apresentado no evento reforçou esse ponto: uma simulação sobre o impacto da reforma tributária na margem de lucro de uma fabricante de bebidas mostrou resultados diferentes entre uma IA genérica e uma IA com acesso aos dados reais da empresa, uma diferença de três pontos percentuais. Para um negócio de grande porte, isso pode ser decisivo. A mensagem foi clara: sem dados e contexto reais da empresa, a IA erra mais do que parece. E foi exatamente esse o ponto de partida da palestra da Insi no evento: as empresas já têm volume de dados de sobra, mas eles estão pulverizados entre sistemas legados, parceiros, bancos de dados diversos e sistemas fiscais, o que impede justamente a visão contextualizada que faz a diferença entre uma IA genérica e uma IA que decide certo.

Uma plataforma para colocar a IA para funcionar com segurança

Também contou com a participação de Adriana Aroulho, presidente da SAP para América Latina e Caribe, que apresentou a SAP Business AI Platform, estruturada em três camadas: contexto, construção e governança.

A camada de contexto reúne os dados e o histórico de processos da empresa. A de construção, permite às empresas construírem seus próprios agentes de IA, com qualquer modelo, em qualquer ambiente e no estilo de cada organização. Já a camada de governança, cuida da segurança e do controle das informações. Essa terceira camada foi apontada como a que realmente separa uma IA usada só como teste de uma IA que passa a fazer parte do dia a dia da empresa com segurança.

Na prática, foi possível ver essas três camadas ganharem forma no conteúdo apresentado pela Insi, que mostrou o SAP Business Data Cloud (BDC), a suíte de dados mais recente da SAP, totalmente gerenciada em nuvem, que unifica informações de sistemas legados, SAP S/4HANA e parceiros sob uma governança centralizada.

O software está deixando de só registrar o trabalho

Outro destaque do dia foi o conceito de empresa autônoma, apresentado por Jan Gilg, presidente global de sucesso do cliente e Américas da SAP: a ideia de que o software deixa de apenas registrar o que foi feito e passa a ajudar a executar o trabalho, sempre com pessoas no controle.

" Não comece pela IA. Comece pelo valor." - Jan Gilg.

Para isso, antes de colocar IA em tudo, é preciso organizar e simplificar os processos internos, criando o que ele chamou de "núcleo limpo". Só assim a tecnologia realmente gera resultado. Esse "núcleo limpo" também apareceu, na prática, na palestra da Insi: um dos exemplos mostrados foi o de projetos de migração de dados legados (BW) para CDS Views dentro do BDC, com IA acelerando o desenvolvimento, gerando documentação do modelo de dados e apoiando a reformulação da arquitetura, de um modelo baseado em persistência para um modelo em nuvem, virtualizado e performático. Ou seja, antes de acelerar com IA, a Insi também está organizando a base de dados das empresas, o mesmo princípio defendido por Gilg.

A transformação com IA é mais sobre pessoas do que sobre tecnologia

Um dado chamou atenção durante a conversa entre Adriana Aroulho e Gina Vargiu-Breuer, Chief People Officer da SAP: a transformação com IA depende 70% de pessoas, processos e liderança, e só o restante de tecnologia.

Um exemplo prático veio da MRS Logística, que usou IA no processo de recrutamento e reduziu em 60% o tempo de triagem de currículos, liberando a equipe para tarefas mais estratégicas. Ainda assim, ficou reforçado que julgamento, ética, criatividade e liderança continuam sendo papéis só das pessoas.

Esse mesmo princípio ganhou um recorte mais aspiracional no painel "Liderança, Gestão de Risco e IA", com o navegador Amyr Klink e o velejador olímpico Lars Grael, moderado pela jornalista Juliana Morrone. Usando o mar como metáfora para decisões em cenários de alta incerteza, os dois reforçaram que a vantagem competitiva nasce da soma de decisões bem fundamentadas, e não de atos isolados de heroísmo. Ambos convergiram para o mesmo ponto discutido ao longo do evento: a IA potencializa o talento humano, liberando líderes para decisões de maior impacto, mas nunca substitui o julgamento humano, que no fim continua sendo indelegável.

O que fica do primeiro dia

O primeiro dia do SAP NOW AI Tour Brazil 2026 mostrou que a inteligência artificial nas empresas está entrando em uma nova fase. Não basta mais testar ferramentas de IA: é preciso ter dados confiáveis, processos organizados e pessoas preparadas para tirar valor real da tecnologia. Foi justamente isso que a palestra da Insi colocou em prática: transformar dados fragmentados em contexto de negócio. Um bom retrato do que a abertura do evento colocou como discurso.

O que marcou o segundo dia do evento

De empresas em transformação a empresas autônomas

Enquanto o primeiro dia discutiu contexto, dados e plataforma, o segundo dia foi dedicado a mostrar "como transformar tudo isso em realidade", com líderes de TI e de negócios no palco contando suas próprias jornadas. Três cases resumiram bem esse movimento: M. Dias Branco, Claro Brasil e Grupo EMS. Empresas em estágios diferentes de maturidade, algumas ainda em ECC, outras já em S/4HANA e IA, mas todas com o mesmo aprendizado: é possível gerar valor em qualquer etapa da jornada, desde que existam dados corretos, regras claras e governança.

Cada uma delas mostrou velocidades e contextos diferentes, mas chegaram a conclusões parecidas. A M. Dias Branco, dois anos e meio depois de trocar 120 sistemas legados por um único ambiente em SAP S/4HANA, hoje fecha a margem de contribuição por SKU em cinco dias úteis, antes levava dois meses, e já usa MES e IoT na fábrica para reduzir sobrepeso, descartes e ganhar eficiência em manutenção preditiva. Segundo Luciane Sallas, diretora executiva-financeira da companhia, a decisão nunca foi sobre tecnologia, mas sobre sustentar o crescimento de uma empresa de R$ 10 bilhões em receita: "autonomia, no fim, é o oposto de perder o controle".

Temos um destaque para a Claro que usou a Reforma Tributária como gatilho para integrar as operações de Claro, NET e Embratel, consolidando mais de 60 sistemas e revisando mais de 350 processos, sempre, segundo o CIO Cesar Augusto, com o cuidado de "não automatizar o caos". O resultado apareceu no fechamento financeiro, que caiu de dois dias para duas horas. Já o Grupo EMS mostrou que a velocidade também pode vir de fora do S/4HANA: em oito meses, a farmacêutica atualizou o ECC e implantou Ariba e SuccessFactors, reduzindo um processo de fluxo de caixa de um dia para poucos minutos. Foi o CTO e CIO Diego Neufert quem resumiu bem o momento da IA nas empresas: um agente de inteligência artificial é como "um estagiário com PhD", tem muito conhecimento, mas precisa de supervisão.

Governança, agentes de IA e o fator humano

Esse foi, talvez, o fio condutor mais forte do segundo dia: a ideia de que autonomia não significa ausência de controle. Seguindo discussões que já aparecem em regulações como o AI Act europeu, Diego Neufert defendeu que cada agente de IA deveria ter uma espécie de procuração de um humano responsável por suas ações, algo auditável e revogável quando necessário. "Assim como um estagiário tem um gestor responsável, o assistente virtual precisa ter também", disse. Na visão dele, isso não é só uma questão de governança, mas também de fazer as pessoas se sentirem donas do processo.

Nos três cases, um pré-requisito se repetiu: antes de automatizar, é preciso padronizar processos, ter dado único e segurança bem definida. A governança e o patrocínio executivo apareceram como fator crítico de sucesso em todas as jornadas.

IA também dialoga com a criatividade

Em um contraponto ao tom mais corporativo do dia, a SAP falou sobre a sua parceria com a São Paulo Escola de Dança para a criação da São Paulo Companhia Jovem de Dança, usando tecnologia para apoiar etapas da criação coreográfica, do desenho espacial à adaptação de uma peça para diferentes palcos e formações de bailarinos. Segundo Inês Bogéa, diretora artística e educacional da escola, a pergunta que guiou o projeto não foi como substituir o olhar do artista, mas como ampliar as possibilidades de experimentação, mantendo as escolhas artísticas nas mãos de quem cria, ensaia e interpreta a obra.

Brasil na vanguarda da IA na América Latina

Em entrevista durante o evento, Adriana Aroulho, presidente da SAP para América Latina e Caribe, reforçou que o Brasil lidera a adoção de IA empresarial na região, na comparação com edições do SAP Now realizadas no México e na Argentina. Para ela, o caminho para as empresas extraírem valor real da tecnologia passa por migrar para a nuvem e quitar a "dívida técnica", além de tratar a IA como parte estrutural da operação, e não como um experimento isolado. Questionada sobre os principais desafios, Aroulho apontou o retorno sobre investimento como ponto central: existe muito experimento de IA no mercado, mas o que realmente faz diferença é uma plataforma integrada, operando processos de ponta a ponta, com governança.

O que fica dos dois dias de evento

Juntando os dois dias do SAP NOW AI Tour Brazil 2026, fica um recado bem claro: a inteligência artificial empresarial deixou de ser uma promessa e começou a virar rotina, mas só nas empresas que fizeram a lição de casa antes. No primeiro dia, a mensagem foi sobre fundação, dados confiáveis, processos organizados e uma plataforma estruturada em contexto, construção e governança. No segundo dia, essa fundação apareceu na prática: M. Dias Branco, Claro e Grupo EMS mostraram, com números concretos, o que acontece quando dado, processo e cultura andam junto com a tecnologia.

O outro ponto que amarrou as duas jornadas foi o papel das pessoas. Se no primeiro dia ficou a estatística de que a transformação com IA depende 70% de pessoas, processos e liderança, no segundo dia essa ideia ganhou corpo com a discussão sobre governança de agentes, cada IA precisa de um humano responsável por ela, auditável e revogável.

No fim, o SAP NOW AI Tour Brazil 2026 deixou uma provocação simples para quem lidera transformação digital: a pergunta não é mais se a empresa vai usar IA, mas se ela tem a base de dados, os processos e as pessoas certas para fazer essa IA decidir bem.

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